Todo roteador é vendido por um número — AC750, AX1800, AX3000 — e esse número não é a velocidade que você vai ter. Ele é a soma das duas bandas, arredondada para cima, e nenhum aparelho conectado usa as duas ao mesmo tempo. Dá para conferir nas fichas dos próprios fabricantes: o AC750 é 433 Mbps em 5 GHz mais 300 Mbps em 2,4 GHz (733); o AX1800 é 1200 mais 574 (1774); o AX3000 é 2402 mais 574 (2976), anunciado como “até 3 Gbps”. E há um número que ninguém põe no nome e que pode travar o seu plano inteiro: o mesmo aparelho AC750 traz portas 10/100 Mbps — ou seja, com fibra acima de 100 Mbps o gargalo passa a ser ele. Este guia mostra como ler a ficha antes de comprar, quando repetidor resolve, quando só o mesh resolve e o que dá para verificar sobre homologação. Preços e disponibilidade mudam o tempo todo; confira sempre na página do produto antes de fechar a compra.
Antes de escolher
- O número do nome é uma soma — leia a banda de 5 GHz sozinha. Esta é a leitura que muda a compra. O nome comercial junta as duas frequências, e os fabricantes publicam a decomposição logo abaixo, na ficha. Três exemplos que abrimos: AC750 = 433 Mbps (5 GHz) + 300 Mbps (2,4 GHz); AX1800 = 1200 + 574; AX3000 = 2402 + 574, que o fabricante anuncia como “velocidades de até 3 Gbps”. Repare que as somas dão 733, 1774 e 2976 — o nome comercial arredonda para cima. Como o seu notebook se conecta a uma banda por vez, o número que importa é o da 5 GHz, e ainda assim ele é uma taxa de laboratório: a própria ficha diz que são “physical rates derived from IEEE Standard 802.11 specifications” e que a vazão real “não é garantida”. A regra prática: compare modelos pela banda de 5 GHz, nunca pelo número do nome.
- A porta Ethernet: o gargalo que não aparece no nome. É o erro mais caro da categoria, e está publicado em letra pequena. Um roteador anunciado como AC750 — número que parece confortável para um plano de 300 Mbps — traz, na ficha, 1 porta WAN de 10/100 Mbps e 4 portas LAN de 10/100 Mbps. Fast Ethernet. Isso significa que todo o plano entra pelo aparelho limitado a cerca de 100 Mbps, por melhor que seja o Wi-Fi. Um modelo de geração seguinte declara 1 x WAN 10/100/1000 Mbps e 4 x LAN 10/100/1000 Mbps — esse é o que acompanha fibra rápida. Antes de comprar, procure na ficha a expressão 10/100/1000 ou a palavra Gigabit; se estiver escrito apenas 10/100, o aparelho tem teto de 100 Mbps, e nenhum outro número compensa isso.
- Quanto você contratou de internet — e onde o aparelho vai ficar. Antes de olhar modelo, olhe dois dados seus. O primeiro é a velocidade do seu plano: até cerca de 100 Mbps, um roteador de entrada dá conta; acima disso, portas Gigabit deixam de ser luxo e viram requisito. O segundo é a planta da casa. O 5 GHz é mais rápido e atravessa menos parede; o 2,4 GHz alcança mais longe e é mais lento. Isso decide o formato: um roteador só, bem posicionado, resolve apartamento compacto; casa com laje, parede de concreto ou mais de um andar quase sempre pede um segundo ponto. Vale medir onde o sinal cai antes de comprar qualquer coisa — no próprio celular, andando pela casa — porque muita reclamação de Wi-Fi se resolve tirando o roteador de dentro do armário e do chão.
- Repetidor: o que o próprio fabricante avisa. Repetidor é a solução barata para um ponto morto específico, e faz sentido nesse papel — desde que você saiba o que ele cobra. O fabricante escreve com todas as letras: “em alguns casos, os repetidores de sinal podem reduzir a velocidade da internet”. E há a parte que incomoda no dia a dia: “o repetidor cria uma nova rede Wi-Fi, o que significa que você terá que alternar entre as redes ao se mover pela casa”, de modo que, ao circular, “seu dispositivo irá trocar de rede e sua conexão pode cair por algum tempo até que seja reestabelecida”. Traduzindo: chamada de vídeo que cai ao passar da sala para o quarto é comportamento esperado, não defeito. Se o seu problema é um cômodo só e você não anda com o aparelho na mão, o repetidor resolve barato. Se o problema é a casa inteira, ele não é a peça certa.
- Mesh: rede única, e a cobertura em m² é uma declaração. O sistema mesh é um conjunto de pontos que formam uma só rede, com o mesmo nome — o aparelho passa de um ponto para outro sem você trocar de Wi-Fi, que é exatamente o que o repetidor não faz. A cobertura aparece anunciada em metros quadrados: um kit conhecido declara “cobertura Wi-Fi Mesh para até 415 m² (kit com 2 unidades)”, e o próprio texto lembra que isso depende do ambiente. Trate o número como declaração de catálogo, não como medida da sua casa: parede de concreto, laje e caixa d’água mudam tudo. Duas conferências que valem dinheiro: quantas portas Gigabit cada ponto tem (um kit popular traz três) e se o sistema aceita backhaul por cabo — o fabricante descreve o backhaul Ethernet como opcional, e é ele que dá o melhor resultado quando existe cabo entre os pontos.
- Wi-Fi 5, Wi-Fi 6 e quantos aparelhos você tem em casa. A sigla do padrão está no nome: AC é Wi-Fi 5 (802.11ac) e AX é Wi-Fi 6 (802.11ax). A diferença que se nota em casa não é tanto a velocidade de um aparelho sozinho, e sim o comportamento com muitos aparelhos ao mesmo tempo — e casa brasileira típica hoje tem celular de cada morador, TV, console, campainha, lâmpada e assistente de voz somando dezenas de conexões. Um modelo Wi-Fi 6 de entrada declara 1200 Mbps em 5 GHz contra 433 Mbps de um Wi-Fi 5 antigo, na mesma banda. Ponto importante e honesto: o padrão do roteador não melhora um aparelho que só fala o padrão antigo — ele continua se conectando como antes. Compre Wi-Fi 6 pelo conjunto da casa e pela vida útil do investimento, não esperando milagre num notebook de 2016.
- Antenas, bandas e o que não dá para prometer. Fichas declaram o número de antenas — vimos 3 antenas fixas num modelo de entrada e 4 antenas externas num Wi-Fi 6 —, e mais antenas ajudam na distribuição do sinal, mas nenhum fabricante converte isso em metros. É por isso que todas as fichas trazem a mesma ressalva: a vazão e a cobertura reais não são garantidas e variam com “fatores ambientais, condições de rede e limitações do cliente”, nas palavras de uma delas; outra diz simplesmente que “a taxa real de transferência de dados pode variar”. Isto é o mais próximo de uma promessa que a categoria oferece — e é uma não-promessa. Compare o que é comparável: banda de 5 GHz, tipo de porta, número de pontos e se há backhaul cabeado. O resto é ambiente.
- Selo e número de homologação da Anatel. Aqui o degrau regulatório é explícito, diferente de outras categorias que já examinamos. A Anatel afirma que “não se permite o uso ou a comercialização de produtos para telecomunicações em território brasileiro sem homologação” — e a lista oficial de exemplos de avaliação da conformidade obrigatória cita, nominalmente, “tablets, telefones celulares, drones, controles remotos e roteadores“. O produto homologado “deve apresentar selo com a logomarca da Anatel e número de homologação”, que é consultável nos sistemas da própria agência. Segundo a Anatel, certificação e homologação “garantem ao consumidor a aquisição e o uso de produtos para telecomunicações que respeitam padrões de qualidade, de segurança e de funcionalidades técnicas regulamentadas”. Na prática: procure o número na caixa, na etiqueta do aparelho ou no anúncio. Roteador sem selo e sem número não deveria estar à venda aqui — e essa é uma verificação que custa trinta segundos.
1. Roteador dual band de entrada
para plano de até cerca de 100 Mbps e apartamento compacto
É o formato de entrada da categoria e resolve bem dentro do seu limite. Um modelo típico declara 433 Mbps em 5 GHz e 300 Mbps em 2,4 GHz (o tal “AC750”) e 3 antenas fixas. A conferência decisiva está nas portas: esse mesmo modelo traz 1 WAN e 4 LAN de 10/100 Mbps, e isso põe teto de cerca de 100 Mbps na sua conexão, não importa o plano contratado. Ou seja: só compre um de entrada se o seu plano couber nesse teto. Serve para navegar, streaming e trabalho leve em casa pequena; não serve para fibra rápida. Procure o selo e o número de homologação da Anatel na caixa antes de fechar.
2. Roteador Wi-Fi 6 com portas Gigabit
para fibra acima de 100 Mbps e casa com muitos aparelhos conectados
É o que acompanha plano rápido de verdade. Um modelo de referência declara até 1200 Mbps em 5 GHz e 574 Mbps em 2,4 GHz (o “AX1800”), 4 antenas externas e, o que mais importa, 1 WAN e 4 LAN de 10/100/1000 Mbps — Gigabit em todas. Procure exatamente essa notação na ficha: “10/100/1000” ou “Gigabit”. O padrão Wi-Fi 6 (802.11ax) ajuda quando há muitos aparelhos simultâneos, que é a situação real de casa com TV, consoles e dispositivos inteligentes. Lembre que a taxa declarada é derivada da especificação IEEE e que a vazão real varia com o ambiente — nenhum fabricante garante o contrário.
3. Kit mesh de duas unidades
para casa com mais de um andar, laje ou parede grossa — quando o problema é a casa inteira
É a solução para cobertura uniforme, porque os pontos formam uma rede só e o aparelho troca de ponto sem você mudar de Wi-Fi. Um kit conhecido declara até 415 m² com duas unidades, 2402 Mbps em 5 GHz e 574 Mbps em 2,4 GHz e 3 portas Gigabit por unidade. Duas leituras honestas do número de cobertura: ele é declaração de catálogo e depende do ambiente; e o resultado melhora bastante quando existe backhaul por cabo entre os pontos — o fabricante trata o backhaul Ethernet como opcional, e é a opção que vale ativar se você tiver como passar um cabo.
4. Unidade mesh avulsa para ampliar o kit
para quem já tem mesh e ficou faltando um cômodo
Antes de trocar o sistema inteiro, verifique se a sua linha vende unidade avulsa compatível — costuma sair bem mais barato que um kit novo e mantém a mesma rede. Confira três coisas na ficha: se o modelo é da mesma família declarada como compatível, quantas portas Gigabit a unidade traz (é por ela que você liga a TV ou o console por cabo) e se ela aceita ligar ao ponto principal por cabo. Posicionamento importa mais do que quantidade: um ponto intermediário bem colocado, ainda com sinal bom vindo do principal, cobre mais do que dois pontos jogados nas pontas da casa.
5. Repetidor ou extensor de sinal
para um ponto morto específico, com orçamento curto — sabendo o que ele cobra
É a peça certa para um problema pequeno e localizado, e o fabricante é franco sobre o preço disso: “em alguns casos, os repetidores de sinal podem reduzir a velocidade da internet”, e o aparelho “cria uma nova rede Wi-Fi”, com outro nome, de modo que ao circular pela casa “seu dispositivo irá trocar de rede e sua conexão pode cair por algum tempo”. Com isso em mente, use-o onde ele brilha: quarto dos fundos, varanda, garagem — lugares onde você fica parado. Instale-o num ponto em que o sinal do roteador ainda chega bem, porque ele repete o que recebe. Prefira modelos dual band, e confira o tipo da porta se pretende ligar algo por cabo nele.
6. Cabo de rede e switch Gigabit
a solução que quase ninguém sugere — e que resolve mais barato quando dá para passar cabo
Antes de comprar mais Wi-Fi, considere o caminho antigo: onde o aparelho é fixo (TV, console, computador de mesa, o ponto mesh do andar de cima), o cabo entrega mais e some com o problema. Dois cuidados de compra. O switch tem de ser Gigabit — procure “10/100/1000” na ficha, porque switch 10/100 recria exatamente o gargalo que você está tentando resolver. E o cabo deve ser de categoria compatível com Gigabit, informação que o fabricante declara na embalagem; meça o trajeto real antes, com folga, porque cabo curto demais é a devolução mais boba da categoria. É também o jeito de fazer o backhaul cabeado do seu mesh.
Por onde começar
Antes de qualquer coisa: saiba a velocidade do seu plano e procure na ficha do candidato se as portas são 10/100 ou 10/100/1000. Isso já elimina metade dos erros. Plano até ~100 Mbps, apartamento compacto: roteador dual band de entrada resolve. Fibra acima de 100 Mbps: roteador com portas Gigabit, de preferência Wi-Fi 6. Sinal ruim na casa inteira, dois andares: kit mesh de duas unidades. Já tem mesh e falta um cômodo: unidade avulsa da mesma família. Falta sinal em um ponto só, onde você fica parado: repetidor dual band, instalado onde o sinal ainda chega bem. Dá para passar cabo até o aparelho: cabo e switch Gigabit entregam mais por menos. Está montando o home office: a mesa e a organização de cabos e a impressora têm guias próprios. O que evitar: comparar aparelhos pelo número do nome, que é soma de bandas; comprar roteador com porta 10/100 tendo fibra rápida; esperar que repetidor mantenha a mesma rede; tomar a cobertura em m² como medida da sua casa; e comprar sem procurar o selo e o número de homologação da Anatel.
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