Duas fichas de coifa abertas lado a lado explicam a categoria inteira. Uma declara quatro vazões, uma por velocidade — 300, 440, 605 e 845 m³/h — e diz de onde saíram: “Conforme norma IEC 61591”. A outra declara um número só, 1.200 m³/h, e não cita norma nenhuma no manual inteiro. A segunda parece 42% mais forte, e é justamente a que não conta como mediu. A diferença tem nome no setor: a medida mais comum aqui é a vazão livre, feita “com o motor da coifa em bancada (laboratório), sem a mesma estar instalada”; a IEC 61591 “simula uma coifa instalada em condições reais com 1 metro de duto de 150 mm”. Antes de comparar modelos, então, vale saber qual número você está lendo — e fazer a conta da sua cozinha, que quase sempre pede muito menos do que o anúncio oferece. Preços e disponibilidade mudam o tempo todo; confira sempre na página do produto antes de fechar a compra.
Referência atualizada em 12/09/2026. Este guia citava a Portaria Inmetro nº 371/2009. Conferimos na pesquisa de legislação do Inmetro e esse ato está revogado: a referência em vigor é Portaria Inmetro nº 148, de 28 de março de 2022 (Inmetro/ME), cujo texto traz a cláusula que revoga o ato citado. O regime não mudou — lemos o regulamento novo por inteiro antes de trocar o número, e a conclusão deste guia continua valendo. Trocamos a referência porque regulamento revogado não serve de fonte, mesmo quando a regra que ele criou continua de pé.
Antes de escolher
- A conta que define o tamanho: volume da cozinha vezes 12. É uma conta de fita métrica, e o próprio setor publica a fórmula: “Área cúbica x 12 renovações ou A (Altura) x L (Largura) x C (Comprimento ou Profundidade) x 12 renovações”. O exemplo do fabricante: “4 m x 4 m x 2,5 m de pé direto, sendo o volume total de 40 m³ x 12 renovações/h = 480 m³”, ou seja 480 m³/h para uma cozinha grande. Faça a sua: uma cozinha de 3 × 3 m com pé-direito de 2,7 m dá 24,3 m³, que vezes 12 são cerca de 292 m³/h. Guarde esse número — ele costuma ser bem menor do que o do anúncio, e é ele que decide se você precisa de um modelo maior ou se está pagando por um número que não vai usar.
- O m³/h tem dois métodos, e só um deles está escrito na ficha. Este é o achado central. Quando a ficha diz “Conforme norma IEC 61591”, o número veio de um ensaio que, segundo a descrição do setor, “simula uma coifa instalada em condições reais com 1 metro de duto de 150 mm sem nenhum obstáculo”. Quando não diz nada, o mais provável é a vazão livre — medida “utilizando-se um anemômetro digital com o motor da coifa em bancada (laboratório), sem a mesma estar instalada”, método que a mesma fonte do setor classifica como “errônea” por ignorar “a distância da captação até a saída externa, diâmetro dos dutos, curvas e reduções”. Procure a palavra IEC na ficha. Se ela não estiver lá, o número não é comparável com o de quem declarou a norma.
- Ruído: quem declara, declara por velocidade — e não é obrigado a declarar. Apurei isso na lista oficial: existe um programa compulsório chamado “Potência sonora de produtos eletrodomésticos”, mas o escopo dele é curto e literal — “este RAC se aplica aos secadores de cabelo, liquidificadores e aspiradores de pó, ou outros aparelhos que façam a função desses”. Coifa não está. Por isso há fichas com quatro valores por velocidade, “Conforme norma IEC 60704” — 34, 40, 49 e 58 dBA na que abrimos —, e fichas sem nenhum número de ruído. Trate a presença do dado como critério: se um fabricante publica o dB de cada velocidade e o outro não publica nenhum, você só consegue comparar um deles.
- Exaustão ou depuração: é isto que decide se dá para instalar. São dois modos, e nem todo aparelho faz os dois. No modo exaustão o ar sai da casa por um duto. No modo depuração, descrito no manual como “há a recirculação do ar no ambiente, após passar pelo filtro de metal anti-gordura”, o ar volta para a cozinha depois de passar também pelo filtro de carvão. Uma das fichas que abrimos diz “Função DEPURAÇÃO / EXAUSTÃO”; a outra avisa que o modelo “funciona apenas no modo EXAUSTOR”. Se o seu apartamento não tem por onde jogar o ar para fora, metade do catálogo já saiu da sua lista — confira essa linha antes de olhar preço.
- O duto tem comprimento máximo, e cada curva consome um metro. Está escrito no manual, e quase nunca no anúncio: “É necessário instalar um tubo de exaustão com saída externa mínima de 150 mm de diâmetro, o tubo deverá ter um comprimento máximo de 5 metros, incluindo as perdas pelas curvas. Cada curva na tubulação é equivalente a 1 metro a mais na distância”. Ou seja: três curvas já gastam três dos cinco metros. Modelos com a caixa do motor separada esticam esse limite — o outro manual fala em “12 metros, somando os dois lados da caixa do motor”, e avisa que acima disso “pode haver perda da vazão declarada”. Meça o caminho real até a saída, com as curvas, antes de escolher o modelo.
- Os filtros: o metálico se lava, o de carvão se troca (e tira vazão). O filtro metálico é permanente e lavável — o manual manda pôr “na máquina de lavar louças” com a temperatura “em torno de 60°C”. Já o de carvão ativado é consumível, e o fabricante é direto: “nunca lave os filtros de carvão ativado”, e a troca deve ser feita “no período máximo de três a seis meses”. Mais importante para a escolha: “quando o filtro de carvão ativado estiver conectado, a potência de sucção será reduzida” — a recirculação custa vazão, declarado pelo próprio fabricante. Antes de comprar, procure o preço do filtro de reposição do modelo; é a mesma conta de custo recorrente do refil de purificador.
- A altura de instalação e a folga em volta são números do manual. Não são preferência de decoração. Um manual fixa a coifa “a uma altura mínima de 700 mm e máxima de 800 mm” acima dos queimadores e exige que “paredes laterais ou armários” fiquem “a uma distância mínima de 60 mm da coifa”. O outro manda conferir a distância “com a tampa de vidro aberta, pois a altura da tampa de cada fogão pode variar”. Para modelo de ilha, há ainda o teto: ele “deve suportar uma carga de pelo menos 120 kg”, e o furo de passagem é de 170 mm. Meça antes: esses três números decidem se o modelo que você gostou cabe na sua cozinha.
- O ponto elétrico é modesto — mas tem de ser exclusivo e aterrado. Aqui a boa notícia: a coifa puxa pouco. As fichas trazem 430 W e 3,3 A em 127 V e 404 W em 220 V, com “disjuntor termomagnético (A) 10”. Cabe folgado num ponto comum — bem diferente da secadora. A exigência está na forma: tomada “de 3 pinos redondos 10 A (NBR 14136) exclusiva”, aterramento “de acordo com a norma NBR 5410”, “em hipótese alguma, conecte outros aparelhos na mesma tomada” e, literalmente, “não utilize adaptadores ou T’s, benjamins e extensões elétricas”. As duas normas aparecem citadas assim nos próprios manuais.
1. Coifa de parede
Para quem tem o fogão encostado na parede e uma saída de ar possível por ali
É o formato de entrada da categoria, e o que mais aparece com ficha completa. As unidades que abrimos declaram 900 mm de largura, altura ajustável de 540 a 1.020 mm e cerca de 15 kg só no corpo. Procure na ficha: a vazão por velocidade, a menção à norma IEC e o diâmetro da saída, quase sempre Ø 150 mm. Confira também a largura contra a do seu fogão — coifa mais estreita que a boca do fogão captura menos do que o número sugere.
2. Coifa de ilha
Para quem cozinha numa bancada solta, no meio da cozinha
Muda tudo na instalação: o duto sobe pelo teto, e o teto precisa aguentar. Um manual exige que ele suporte pelo menos 120 kg e pede furo de 170 mm, além dos 700 a 800 mm de altura sobre os queimadores. O aparelho também é mais pesado — 24 kg na ficha aberta, contra 12 a 13 kg do modelo de parede equivalente. Se a laje não for de alvenaria, leve a pergunta ao instalador antes de fechar a compra.
3. Depurador e coifa em modo recirculação
Para quem não tem como levar o ar para fora
É a saída para apartamento sem duto possível: o ar passa pelo filtro metálico, depois pelo de carvão ativado, e volta para o ambiente. Duas coisas precisam estar claras antes de comprar. Primeira, o fabricante declara que “quando o filtro de carvão ativado estiver conectado, a potência de sucção será reduzida”. Segunda, o carvão é consumível: troca a cada três a seis meses e “nunca lave”. Some o preço do filtro no ano antes de comparar com a opção com duto.
4. Coifa de embutir e slim
Para quem vai esconder o aparelho dentro do armário ou tem pouco pé-direito
Formato pensado para desaparecer no móvel, o que troca presença visual por espaço interno. Vale conferir dois campos com atenção redobrada: a vazão declarada e a norma — modelos compactos tendem a publicar o número único, sem IEC — e a profundidade útil, que precisa caber no armário já descontada a saída de ar. Se o projeto tiver marcenaria, leve as medidas do manual para o marceneiro antes de cortar.
5. Filtros de reposição
Para quem já tem o aparelho e quer manter a vazão que ele declarou
São dois tipos e eles não se confundem. O metálico (alumínio) é lavável e acompanha o produto — um dos manuais traz três deles e libera a máquina de lavar louça a cerca de 60 °C. O de carvão ativado é o que se compra de novo. Há um teste do próprio fabricante para saber a hora: “retire o filtro e balance. Se fizer ruído, ainda pode ser utilizado, caso não ocorra é recomendável a troca”. Compre pelo código do modelo — formato e encaixe variam.
6. Duto, tubo e acessórios de instalação
Para quem já escolheu o modelo e precisa fechar o caminho do ar
É a parte que costuma ficar de fora do orçamento. O padrão das fichas abertas é Ø 150 mm, em tubo semirrígido ou PVC, com o limite de 5 metros contando as curvas — e cada curva vale um metro. Meça o trajeto real até a saída externa antes de comprar o tubo, e prefira o caminho com menos cotovelos: é literalmente o que o manual chama de perda. Abraçadeiras e a grade de saída externa entram na mesma conta.
Por onde começar
Comece com a fita métrica, não com o catálogo. Multiplique comprimento × largura × pé-direito da sua cozinha e multiplique por 12: esse é o m³/h mínimo que a sua casa pede, e ele costuma ser bem menor que o número dos anúncios. Depois ande o caminho do ar até a parede externa contando as curvas, lembrando que cada curva equivale a um metro e que o limite comum é cinco. Se não houver caminho, você está no terreno da recirculação — e aí o filtro de carvão vira despesa de três em três meses, além de reduzir a sucção, pelo que o próprio fabricante declara. Só então vá às fichas, e leia o m³/h buscando a palavra IEC ao lado dele: com norma citada, o número é comparável; sem norma, é outro tipo de medida. Sobre o Inmetro, vale a lição que a apuração deste guia devolveu — buscar “coifa” na lista de programas compulsórios não devolve nada, mas o programa de segurança de eletrodomésticos define o escopo pela norma técnica, e nela está a parte 2-31, de range hoods. A ausência do nome do produto na lista não é a ausência da exigência. Já o ruído é outra história: o programa compulsório de potência sonora alcança apenas secadores de cabelo, liquidificadores e aspiradores de pó, então o dB da coifa é informação que o fabricante dá por decisão própria — e a ficha que dá vale mais que a que omite.
Precisão acrescentada em 12/09/2026: este guia descrevia o mecanismo — o programa define o escopo pela norma técnica — sem nomear o ato que o institui. O ato é a Portaria Inmetro nº 148, de 28 de março de 2022 (Inmetro/ME), de segurança de aparelhos eletrodomésticos e similares, cujo item 2.1 lista as partes da série 60335-2-x que delimitam o escopo; a IEC 60335-2-31 (range hoods) está nessa lista, e a coifa não consta das exclusões do item 1.1, que reservam produtos com programa próprio. É o número que faltava para você conferir a apuração na fonte.
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