Guia da Escolha

Painel solar: os watts do nome valem a 25 °C de célula, e quem publica essa condição é a ficha do vendedor, não a tabela oficial

A potência de um painel solar é um número de laboratório. O item 3.34 da Portaria Inmetro nº 140, de 21 de março de 2022 (Inmetro/ME) define potência nominal do módulo como a potência no ponto de máxima potência “sob as condições de irradiância de 1000 W/m², temperatura de célula de 25 °C, espectro 1.5 AM e incidência normal da radiação, dada em Watt-pico (Wp)”. Telhado nenhum opera a 25 °C de célula sob sol pleno. Abrimos 45 fichas de painel num varejista especializado e a Tabela de Eficiência Energética que o Inmetro publica para módulos, com 857 modelos declarados. O resultado inverteu o que esperávamos: 39 das 45 fichas publicam a sigla STC e o coeficiente de temperatura, enquanto a tabela oficial não traz nenhuma ocorrência de “STC”, de “1000 W/m²”, de “25 °C” ou de “Wp” nas suas onze páginas. Preços e disponibilidade mudam o tempo todo; confira sempre na página do produto antes de fechar a compra.

Antes de escolher

  • O watt-pico é medido a 1000 W/m² e 25 °C de célula. Comece por aqui porque é a régua de tudo o que vem depois. A condição tem nome — STC, de standard test conditions — e está escrita na definição do item 3.34 da Portaria Inmetro nº 140, de 21 de março de 2022: 1000 W/m² de irradiância, 25 °C de temperatura de célula, espectro 1.5 AM e incidência normal. Os dois primeiros números quase nunca acontecem juntos no mundo real: quando a irradiância chega perto de 1000 W/m², a célula já está muito acima de 25 °C. O Wp é um valor de comparação, não uma promessa de entrega.
  • O coeficiente de temperatura é o campo que converte o Wp para o telhado. É o segundo campo a procurar, e a boa notícia é que ele costuma estar lá. Nas 45 fichas que abrimos, 39 publicam o coeficiente de temperatura de potência, com valores entre −0,39 e −0,45 por cento por grau. A conta é direta: perda (%) = (temperatura da célula − 25) × coeficiente. Com o módulo a 47,5 °C — que é o valor que a própria tabela oficial publica na coluna de temperatura de um dos modelos — são 22,5 graus acima do ensaio; a −0,42%/°C isso dá cerca de 9,5% a menos. Um módulo de 550 Wp entrega perto de 498 W nessa condição, com o sol no mesmo 1000 W/m².
  • A temperatura de operação da célula é o outro campo da mesma conta. Ele fecha a fórmula acima e aparece com nomes trocados. Nas fichas que abrimos ele vem como “Temperatura Nominal de Operação de Célula (TNOC/NOCT)”, presente em 39 de 45. Na tabela oficial do Inmetro a coluna existe e se chama, por extenso, “TEMPERATURA (Condições Normais de Operação)” — num dos modelos listados ela traz 47,5. Repare na assimetria: a tabela nomeia a condição da coluna da temperatura e deixa a coluna da potência apenas como “POTÊNCIA (W)”, que é justamente o número que todo comprador compara.
  • A eficiência é calculada sobre a área com moldura, e isso muda a comparação. Serve para não comparar eficiência de catálogos diferentes às cegas. O item 3.10 do mesmo regulamento define eficiência nominal do módulo como a razão entre a potência nominal e o produto da área do módulo “incluindo a moldura externa” pela irradiância, nas mesmas condições de 1000 W/m² e 25 °C. A moldura entra na conta e não gera energia, então a eficiência declarada é sempre menor que a da célula isolada. Na tabela oficial, a área vem numa coluna própria em m², com duas casas — dá para refazer a divisão.
  • A letra da etiqueta quase não separa um módulo do outro. Vale para não pagar por uma letra. A tabela oficial define as faixas: para silício cristalino, A é eficiência acima de 13,5%, B entre 13,0 e 13,5, C entre 12,0 e 13,0, D entre 11,0 e 12,0 e E abaixo de 11,0. Para filmes finos a faixa A começa em 9,5%. Esses degraus foram desenhados para um mercado que já passou: entre as linhas que conseguimos ler na tabela, a esmagadora maioria é A. Compare pela eficiência em número e pela potência, não pela letra.
  • A tabela oficial que o consumidor encontra é de 2018. Registramos porque muda onde vale a pena conferir. A tabela de módulos publicada na página de tabelas de eficiência do Inmetro se identifica como “Edição 2017” e traz “Data de Atualização: 27/2/2018” em todas as onze páginas, com 148 empresas, 516 marcas e 857 modelos. O regulamento em vigor é de 2022. A própria tabela avisa que “a informação nela contida eventualmente fica desatualizada por alguns períodos e deve ser confirmada no banco de produtos registrados”. Para um módulo lançado depois de 2018, a consulta útil é o banco de registros, não a tabela.
  • O número do registro e o código QR são o caminho de conferência. É o que transforma a etiqueta em algo verificável. O Anexo III do regulamento manda a etiqueta ser aposta “diretamente no produto ou, alternativamente, em sua embalagem” e exige um código QR que leve a uma página com as especificações técnicas e com a ligação para a consulta de Registro de Objetos do Inmetro. Os campos obrigatórios da etiqueta do módulo são Eficiência, Potência, Área, Tecnologia, Fornecedor, Marca, Modelo, Categoria e Número do Registro. O número do registro é o que permite confirmar o modelo — e na tabela oficial ele vem com a data inicial do registro ao lado.
  • No mesmo regulamento, a bateria ganhou campo de condição e o módulo não. É o contraste que mais diz sobre esta prateleira. O Anexo III especifica também a etiqueta das baterias, e lá existe um campo chamado “Regime Descarga”, que o fornecedor tem de preencher “especificando se 10 h ou 5 h, conforme a tecnologia”, além de mandar que a capacidade em Ah seja declarada “em 25 °C”. O mesmo ato, na mesma página, criou um campo para a condição num produto e não criou no outro. Já a etiqueta dos inversores tem Eficiência e nenhum campo de potência.
  • Módulo, controlador, bateria e inversor são quatro etiquetas diferentes. Fecha o mapa de quem compra um sistema inteiro. O regulamento cobre equipamentos de geração, condicionamento e armazenamento de energia em sistemas fotovoltaicos, e o Anexo III desenha etiqueta para cada um: o módulo declara eficiência, potência e área; o controlador declara apenas o tipo (PWM ou MPPT), fornecedor, marca, modelo e registro; a bateria declara tecnologia da placa, regime de descarga, tensão e capacidade; o inversor declara eficiência. Não existe um número único que resuma o sistema: cada peça publica o seu, e em condição própria.
Painel solar de até 100 Wp — imagem ilustrativa

1. Painel solar de até 100 Wp

para carregar bateria pequena, portão, câmera ou acampamento

É a faixa em que o Wp engana menos porque o uso é intermitente. Ainda assim o número declarado vale a 1000 W/m² e 25 °C de célula, e nenhum painel opera assim o dia todo. Procure na ficha o coeficiente de temperatura — estava em 39 das 45 fichas que abrimos, entre −0,39 e −0,45 por cento por grau — e o número do registro no Inmetro, que permite confirmar o modelo na consulta oficial.

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Painel solar de 150 a 350 Wp — imagem ilustrativa

2. Painel solar de 150 a 350 Wp

para sistema isolado de sítio, bomba ou reforço de consumo

É a faixa mais comum no varejo especializado. Aqui vale a conta inteira: pegue o coeficiente de temperatura e a temperatura de operação de célula da ficha e aplique (temperatura − 25) × coeficiente. Num módulo cuja ficha traz 47,5 °C e −0,42%/°C, a perda é de cerca de 9,5% em relação ao Wp. Compare a eficiência em número, não pela letra da etiqueta.

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Painel solar acima de 400 Wp — imagem ilustrativa

3. Painel solar acima de 400 Wp

para telhado residencial e kits de maior porte

É onde a diferença entre Wp e entrega pesa em reais. Confira se a ficha traz STC escrito ao lado da potência: em 45 fichas, 39 traziam, e essa é a informação que torna dois números comparáveis. Confira também a área em m², porque a eficiência declarada é calculada sobre a área com a moldura, pelo item 3.10 do regulamento. Módulo recente dificilmente estará na tabela oficial, que é de 2018.

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Controlador de carga PWM ou MPPT — imagem ilustrativa

4. Controlador de carga PWM ou MPPT

a peça cuja etiqueta declara o tipo e mais nada de desempenho

É a peça com a etiqueta mais enxuta do conjunto. Pelo Anexo III do regulamento, a etiqueta do controlador traz Tipo (PWM ou MPPT), fornecedor, marca, modelo, número do registro e o código QR — e nenhum campo de eficiência ou de corrente. O que decide a compra está na ficha do fabricante, não na etiqueta. Confira a corrente e a tensão máxima de entrada contra o arranjo que você vai montar.

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Bateria para sistema solar isolado — imagem ilustrativa

5. Bateria para sistema solar isolado

a única do conjunto cuja etiqueta tem campo próprio para a condição

É o contraponto que explica o guia inteiro. O Anexo III manda a etiqueta da bateria trazer “Regime Descarga”“especificar se 10 h ou 5 h, conforme a tecnologia” — e a capacidade em Ah declarada “em 25 °C”, além da tecnologia da placa e da tensão. Capacidade sem regime de descarga não compara: a mesma bateria entrega menos Ah quando descarregada em 5 h do que em 10 h, e por isso o campo existe.

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Inversor off-grid e on-grid — imagem ilustrativa

6. Inversor off-grid e on-grid

etiqueta com eficiência e sem potência

Fecha o sistema e tem a assimetria oposta à do módulo. Pelo Anexo III, a etiqueta dos inversores — tanto on-grid quanto off-grid — traz Eficiência em %, com uma casa decimal, fornecedor, marca, modelo, registro e QR, e nenhum campo de potência. A potência que o inversor suporta está na ficha do fabricante. Confira a compatibilidade com a tensão do seu banco de baterias e deixe a ligação elétrica com profissional habilitado.

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Por onde começar

Comece separando o que é número de laboratório do que é número de telhado. O watt-pico do nome vale a 1000 W/m² e 25 °C de célula, pela definição do item 3.34 do regulamento, e serve para comparar dois módulos entre si — não para prever quanto sai da instalação. Para converter, pegue na ficha dois campos: o coeficiente de temperatura de potência e a temperatura de operação de célula, e aplique (temperatura − 25) × coeficiente. Num módulo com 47,5 °C e −0,42%/°C, a perda é de cerca de 9,5%. Os dois campos estavam em 39 das 45 fichas que abrimos, então prefira a ficha que os publica — e desconfie da que só mostra o Wp. Compare a eficiência em número, lembrando que ela é calculada sobre a área com moldura, e não pela letra da etiqueta, cuja faixa A começa em 13,5% e por isso quase não separa nada hoje. Por fim, confirme o modelo pelo número do registro na consulta de Registro de Objetos do Inmetro: a tabela de eficiência publicada para módulos é a edição 2017, atualizada em 27 de fevereiro de 2018, e ela mesma avisa que precisa ser confirmada no banco de registros. Toda ligação elétrica é serviço de profissional habilitado.

Fontes desta página. A definição de potência nominal do módulo do item 3.34, a de eficiência nominal do item 3.10 e os campos de cada etiqueta do Anexo III estão no texto consolidado da Portaria Inmetro nº 140, de 21 de março de 2022, em PDF, as alterações em vigor estão na Portaria Inmetro nº 515, de 10 de novembro de 2023, e os 857 modelos, as faixas de classificação e a coluna de temperatura estão na Tabela de Eficiência Energética de módulos fotovoltaicos publicada pelo Inmetro. Conferido em 17 de setembro de 2026. O que esta apuração não é: as 45 fichas vêm de um único varejista especializado, escolhido por publicar ficha técnica completa em página aberta, e por isso medem como esse vendedor publica, não o mercado. Não abrimos nenhum painel, não medimos potência nem temperatura de nenhum módulo, e os valores de perda citados são contas nossas a partir dos campos que as fichas declaram. Os desenhos das etiquetas do Anexo III são imagens no documento oficial; o que lemos foram as notas que especificam, campo a campo, o que cada etiqueta deve conter — não conferimos nenhuma etiqueta impressa. Na base de atos do Inmetro a Portaria nº 140 aparece como “Revisto”, com a Portaria nº 515 registrada como o ato que a altera, e a ficha do ato na base declara “É alterado por Portaria INMETRO / MDIC nº 515, de 10/11/2023 — Em vigor” como a única alteração: conferido em 17 de setembro de 2026, não há ato posterior que a altere (a Portaria Inmetro nº 9, de 2 de janeiro de 2025, apenas a menciona). Documentos do fabricante podem mudar sem aviso.

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