Guia da Escolha

Cadeado e tranca: o nível de proteção 4 vem sem escala, e o programa de qualidade do setor não cobre cadeado

Um cadeado de 40 mm é 40 milímetros de quê? O fabricante que mais se deu ao trabalho de explicar responde três vezes, e as três respostas não são a mesma: no item 1 do artigo diz que a marcação “CR 25” significa “25 mm de comprimento”; no item 3 do mesmo artigo diz que “é a largura da base do cadeado que determina esse tamanho”; e noutro texto diz que o número é “o tamanho do corpo do produto”. Nas lojas dos outros dois fabricantes que abrimos, o seletor se chama apenas “Tamanho”, com as opções de 20 a 50 mm e nenhuma linha dizendo o que foi medido. Enquanto isso, um dos cadeados anuncia “Nível de proteção 4” — e a busca do próprio site da marca por “nível de proteção” devolve “Desculpe, não foram encontrados resultados”. Este guia mostra o que cada ficha publica, o que o único documento técnico do setor classifica (e que produto ele classifica), e o que não existe publicado em lugar nenhum. Preços e disponibilidade mudam o tempo todo; confira sempre na página do produto antes de fechar a compra.

Antes de escolher

  • O número do cadeado é a largura do corpo — e quem explica isso é o blog, não a ficha. É o dado que decide a compra e ele quase nunca está na página do produto. Nas fichas dos três fabricantes que abrimos, o campo aparece como “Tamanho” com as opções 20mm, 25mm, 30mm, 35mm, 40mm, 45mm e 50mm, sem nenhuma legenda do que foi medido. A explicação está num artigo de blog de um deles, que escreve: “convencionou-se que é a largura da base do cadeado que determina esse tamanho”. O mesmo artigo, poucas linhas antes, tinha dito que “CR 25” quer dizer “25 mm de comprimento”. Ao comparar dois cadeados, trate o número como largura do corpo e confira se a peça cabe onde vai ficar.
  • A marcação CR fica no corpo e na embalagem — é por onde se confere o que já existe. Serve para quem precisa repor um cadeado sem ter a embalagem. O fabricante descreve a convenção assim: a marcação é do tipo “CR XX”, e esse valor “também vem no corpo do cadeado”, além da embalagem. Ou seja, o cadeado velho carrega, gravado nele, o número que você precisa procurar no novo. Vale conferir antes de comprar pela lembrança do tamanho.
  • Abertura do arco e espessura da haste: as duas medidas que ninguém numera. Aqui a ausência é o dado. O artigo do fabricante cita a espessura da haste como um dos fatores que mudam o resultado, e adverte que “um cadeado muito robusto não poderá ser utilizado na janela pois, possivelmente, a haste não conseguirá atravessar o ferrolho”. Procuramos o número dessa haste — e o vão livre do arco — em oito fontes de três fabricantes: nenhuma das duas medidas é publicada. Consequência prática: não dá para saber pela ficha se a haste passa pelo seu ferrolho. O jeito é medir a passagem e levar a medida.
  • Haste padrão, média e longa: adjetivo onde deveria haver milímetro. É o mesmo problema com outro nome. Uma das marcas vende a mesma linha em três opções — “Haste Padrão”, “Haste Média” e “Haste Longa” — e não publica um milímetro ao lado de nenhuma das três. Na outra marca, a palavra “tamanho” troca de significado dentro do próprio catálogo: o cadeado para bicicleta é descrito como tendo “dois tamanhos de haste diferentes: 600 mm e 1200 mm”, que é comprimento de cabo, não largura de corpo. Ao comparar, pergunte sempre qual peça o número está medindo.
  • Nível de proteção 4: o número está publicado, a escala não. Este é o caso mais claro do nicho. A ficha de um cadeado traz, no campo “recurso extra de segurança”, a frase “Possui Trava Dupla e Nível de proteção 4”. Quatro de quantos? Medido como? Procuramos na busca do próprio site que publica a frase: o resultado para “nível de proteção” é “Desculpe, não foram encontrados resultados”. Um número sem escala não compara com nada — nem com outro modelo da mesma marca. Quando vir um nível num anúncio, procure a tabela que o define antes de considerá-lo na comparação.
  • A norma de ensaio existe no Brasil — e é da fechadura de embutir, não do cadeado. Vale conhecer porque explica a diferença de informação entre duas peças vendidas na mesma gôndola. O único documento técnico que um dos fabricantes publica é um Atestado de Qualificação do Programa Setorial da Qualidade de Fechaduras, emitido pela ABIMCON e pela TESIS dentro do PBQP-H. Ele atesta conformidade “com os requisitos de desempenho especificados na Norma Técnica Brasileira ABNT NBR 14913/11 – Fechadura de embutir – Requisitos, classificação e métodos de ensaio” e informa que “os ensaios são realizados pelo Laboratório TESIS, laboratório de ensaios acreditado pelo Cgcre de acordo com a NBR ISO/IEC 17025, sob o nº CRL 162”. A palavra cadeado não aparece nenhuma vez no documento. O rodapé ainda avisa que “a norma ABNT NBR 14913:2025 cancela e substitui a norma ABNT NBR 14913:2011”, com prazo de doze meses para adequação.
  • O que a peça embutida publica e o cadeado não: cinco degraus, três usos e quatro graus. É o tamanho exato da diferença. A tabela do atestado classifica a fechadura de embutir por Tipo (de I a XII, cada um com as cotas em milímetros), por frequência de uso (Leve, Médio, Intenso), por segurança (Mínima, Média, Alta, Muito Alta, Máxima) e por grau de resistência à corrosão (Grau 1 a 4) — e o documento diz o que cada grau significa: o Grau 4 é para “condições severas quanto à umidade e intempéries (ex: regiões litorâneas e industriais)”. Nada disso existe para o cadeado. O atestado que lemos declara “Emissão: 01 de junho de 2025 – Validade: 07 de setembro de 2025”, e não encontramos versão mais recente publicada na página de downloads.
  • Não há selo compulsório, e isso é conferível em documento. Fecha o quadro do que é verificável, e o método importa mais que o resultado. O Inmetro publica um documento de 337 páginas com as fichas de classificação de risco dos objetos regulados: 98 objetos em três níveis. Procuramos nele, com busca que ignora maiúsculas e acentos: “cadeado”: zero. “fechadura”: zero. No mesmo arquivo, “capacete” aparece 16 vezes, “extintor” 150 e “brinquedo” 35 — a busca acha o que deve achar. E na base de legislação do Inmetro, a única entrada para “cadeado” é uma portaria de inspeção de segurança veicular, já revogada, em que a palavra aparece de passagem. Não existe selo obrigatório para usar como filtro nesta compra. Isso não torna o produto irregular: quer dizer que a comparação tem de se apoiar no que a ficha declara — material, mecanismo e medida.
Cadeado de latão maciço de 20 a 30 mm — imagem ilustrativa

1. Cadeado de latão maciço de 20 a 30 mm

para mochila, armário e uso leve, segundo a faixa que o fabricante descreve

É a faixa que o fabricante associa a “objetos pequenos como mochilas e maletas, armários e baús”, na descrição dele. A ficha que abrimos publica, além do número, os materiais peça a peça: “Corpo: Latão Maciço”, “Gancho/Haste: haste niquelada de aço”, “Mola: Aço Inox”, “Pino: Latão” e “Tambor: Latão trefilado”, com a observação “formato carretel antigazua”. Confira o número gravado no corpo e compare pela lista de materiais, que é o que está publicado.

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Cadeado de 40 a 50 mm — imagem ilustrativa

2. Cadeado de 40 a 50 mm

para portão e porta externa, na faixa que os catálogos chamam de maior

É a faixa alta dos catálogos que lemos — um deles vai até 50 mm na linha de latão e o outro descreve a faixa de “50 a 70” como a mais usada “para trancar portões de residências e empresas”. Lembre que o número é a largura do corpo: cadeado maior não garante que a haste atravesse o ferrolho, porque a espessura dela não é publicada. Meça a passagem da sua tranca ou corrente antes de escolher.

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Cadeado de haste longa — imagem ilustrativa

3. Cadeado de haste longa

para quando a passagem é mais alta do que a haste comum alcança

Existe como linha própria nos dois fabricantes, com os nomes “Haste Padrão”, “Haste Média” e “Haste Longa” — e, nas fichas que abrimos, nenhum milímetro ao lado de nenhuma das três. Como o número não está publicado, o caminho é medir a altura livre de que você precisa e comparar com a peça na loja. É a categoria em que mais vale levar a fita métrica.

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Cadeado com segredo numérico — imagem ilustrativa

4. Cadeado com segredo numérico

para quem não quer carregar chave, com a ressalva do dígito

A quantidade de dígitos muda dentro da mesma linha e está publicada. Um fabricante descreve: “para os tamanhos pequeno e médio, a abertura é dada por um segredo numérico de três dígitos; para o tamanho grande, é configurado um segredo de quatro dígitos”. Outro publica, no atributo do produto, se o “segredo de fábrica pode ser alterado” — o que é um campo comparável entre modelos. Confira esses dois pontos na descrição antes de escolher.

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Corrente e cabo de aço para usar junto — imagem ilustrativa

5. Corrente e cabo de aço para usar junto

para quando o que prende é tão decisivo quanto o cadeado

Os catálogos publicam a peça de amarração com duas cotas e uma legenda enxuta: um deles lista “Ø6x600mm, Ø6x800mm, Ø8x800mm e Ø8x1000mm”, onde o primeiro número é o diâmetro e o segundo é o comprimento. Nenhum publica carga de ruptura — procuramos por kgf, tração e ensaio em oito fontes e o resultado foi zero. Compare pelo diâmetro e pelo comprimento, que são os dados que existem, e confira se o arco do seu cadeado passa pelo elo.

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Trava auxiliar de sobrepor — imagem ilustrativa

6. Trava auxiliar de sobrepor

para a porta, onde as cotas que faltam no cadeado aparecem

É o contraste útil desta lista: na ficha de uma trava auxiliar do mesmo fabricante aparecem “Máquina: 40mm”, “Tamanho do Cilindro: 55mm, 74mm”, “Testa: Aço Inoxidável” e o tipo de porta. São as medidas que decidem se a peça encaixa — e que o cadeado não publica. Antes de comprar, anote as cotas da sua porta e confirme com um profissional de chaveiro ou serralheria se o modelo atende ao que você tem.

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Por onde começar

Comece medindo a passagem, não o cadeado: a altura livre do ferrolho, do elo da corrente ou do furo do porta-cadeado. É essa medida que decide, e é justamente a que nenhuma ficha permite conferir, porque a espessura da haste e a abertura do arco não são publicadas por nenhuma das três marcas que abrimos. Depois, leia o número do produto como largura do corpo — é o que o fabricante diz no artigo dele, mesmo tendo chamado o mesmo número de “comprimento” poucas linhas antes. Se for repor um cadeado que já existe, procure a marcação CR gravada no corpo da peça antiga: o número está lá. Ao comparar duas fichas, compare o que existe — material do corpo, da haste, da mola e do tambor, tipo de segredo e quantidade de dígitos — e desconfie de nível ou grau anunciado sem a tabela que o define: o “nível de proteção 4” que vimos não tem escala publicada nem na busca do site que o anuncia. Por fim, guarde a diferença que este guia mediu: a peça embutida na porta tem norma brasileira, laboratório acreditado e classificação por tipo, uso, segurança e corrosão; o cadeado não aparece nesse documento nem entre os 98 objetos com ficha de risco do Inmetro. Não há selo obrigatório para conferir aqui — o que há é ficha, e ela diz menos do que parece.

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Cadeado e tranca: o nível de proteção 4 vem sem escala, e o programa de qualidade do setor não cobre cadeado — Guia da Escolha

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