Guia da Escolha

Aquecedor a gás: o 15 do nome é litro por minuto com a água subindo 20 °C, e a tabela oficial publica o número sem essa condição

Um aquecedor a gás chamado de “15 litros” não guarda 15 litros: entrega 15 litros por minuto — e só com a água subindo 20 °C. Essa condição tem lugar certo no regulamento. O Anexo B da Portaria Inmetro nº 89, de 22 de março de 2022 (Inmetro/ME), na redação dada pela Portaria Inmetro nº 222, de 7 de abril de 2026, traz na Planilha de Especificação Técnica o campo “Capacidade Nominal de Vazão (p/Δt=20ºC)(l/min)”. Abrimos a Tabela de Eficiência Energética que o Inmetro publica para esses aparelhos, com 378 registros: a coluna está lá, chamada apenas “Capacidade de Vazão (litros/min)”, e as palavras Δt, “20 °C” e “elevação” não aparecem nenhuma vez nas sete páginas. Em compensação, 14 das 18 fichas de modelo que abrimos num fabricante trazem a condição escrita por extenso. Preços e disponibilidade mudam o tempo todo; confira sempre na página do produto antes de fechar a compra.

Antes de escolher

  • A vazão declarada vale para uma elevação de 20 °C, e essa é a régua inteira. Comece por aqui porque é o que muda a conta. A Planilha de Especificação Técnica do Anexo B da Portaria Inmetro nº 89, de 22 de março de 2022, na redação dada pela Portaria Inmetro nº 222, de 7 de abril de 2026, nomeia o campo como “Capacidade Nominal de Vazão (p/Δt=20ºC)(l/min)”. Δt é a diferença entre a água que entra e a que sai, não a temperatura do banho. Um aparelho de 15 l/min entrega esses 15 litros por minuto enquanto aquecer a água em 20 °C. Se a água entra a 22 °C, ela sai a 42 °C — e essa é a situação de verão. No inverno a mesma torneira pede mais.
  • A conta que converte o número do anúncio para o seu caso. É a única conta deste guia e ela cabe numa linha. Vazão real = vazão declarada × 20 ÷ Δt que você precisa. Se a água entra a 15 °C e você quer 40 °C, o Δt é 25 — e um aparelho de 15 l/min passa a entregar 12 l/min. Se entra a 10 °C e você quer 42 °C, o Δt é 32 e o mesmo aparelho entrega 9,4 l/min. Quanto mais frio o lugar, menor a vazão útil, sem que nada mude no aparelho. A conta também anda para o outro lado: no verão, com Δt de 15, ele entrega 20 l/min.
  • Some a vazão dos pontos que vão abrir juntos, não a do maior deles. Serve para dimensionar e evita comprar duas vezes. O número a comparar é a soma dos pontos que ficam abertos ao mesmo tempo, já convertida pelo Δt do seu inverno. Um chuveiro e uma torneira abertos juntos pedem a soma, e é aí que aparelhos que pareciam folgados ficam justos. O próprio manual do instalador tem o outro extremo: o item F.2.1 do regulamento manda o manual informar “a vazão mínima de água para o acendimento”. Existe um piso abaixo do qual o aparelho não liga — o que importa a quem tem pouca pressão.
  • A condição está na ficha do vendedor com mais frequência do que no documento oficial. É o resultado que mais nos surpreendeu, e ele inverte o que esperávamos. Nas 18 fichas de modelo que abrimos, 14 trazem a linha inteira — “Vazão aproximada de água com elevação de temperatura a Δt 20ºC (com misturador)” — e ainda citam a norma e a portaria ao pé da tabela. Já a Tabela de Eficiência Energética publicada pelo Inmetro, com 378 registros, chama a mesma coluna de “Capacidade de Vazão (litros/min)” e não repete a condição em lugar nenhum. Prefira a ficha que escreve o Δt: sem ele o número não compara.
  • A condição dá para ser recuperada da própria tabela que a omite. Vale porque transforma o leitor em conferente. Aquecer 1 litro de água em 1 grau consome 1 quilocaloria; logo a elevação implícita é potência (kcal/h) × rendimento ÷ (vazão × 60). Fizemos essa conta nas 334 linhas da tabela oficial que trazem os três campos: a mediana deu 19,99 °C e 323 delas caíram entre 19 e 21. O número que a tabela não escreve está dentro dos números que ela escreve — e a mesma conta serve para conferir qualquer ficha que traga potência, rendimento e vazão.
  • O que é obrigatório estar no produto é a potência, não a vazão. É onde procurar, e onde não adianta procurar. O item F.1.1.1 do regulamento lista o que o fornecedor tem de manter “no produto, em lugar visível”: nome do fabricante ou marca, designação do tipo em função da exaustão, potência nominal nas condições padrão em kW, rendimento sobre o Poder Calorífico Superior em %, tipo de gás, volume do tanque quando couber e as informações de segurança da instalação. A vazão não está nessa lista. Na embalagem (item F.1.1.2), a redação em vigor — a da retificação publicada no Diário Oficial da União de 9 de agosto de 2023 — pede pressão de gás, pressão de água e tipo de exaustão, e deixou de pedir a vazão de operação, que a redação anterior trazia.
  • O rendimento tem piso legal, e a classificação é quase toda a mesma letra. Ajuda a saber quanto a etiqueta discrimina. O item A.1.3 fixa o mínimo de eficiência: 76% para o tipo instantâneo e 72% para o de acumulação. A Tabela A.1 reparte o instantâneo em cinco faixas: A de 84% para cima, B entre 82 e 84, C entre 80 e 82, D entre 78 e 80 e E entre 76 e 78. Na tabela oficial que abrimos, entre as linhas cuja classe conseguimos ler, 327 eram A, 5 eram B e 2 eram C. A letra quase não separa um aparelho do outro; o que separa é o rendimento em número.
  • Instantâneo e acumulação não se comparam pelo mesmo campo. É a fronteira desta prateleira. O regulamento trata os dois tipos com campos diferentes na mesma planilha: o instantâneo declara “Capacidade Nominal de Vazão (p/Δt=20ºC)(l/min)”; o de acumulação declara “Volume Interno do Reservatório (l)” e “Tempo de Aquecimento Inicial (p/Δt=20ºC sem circulação de água)”. E o manual do de acumulação traz, pelo item F.2.2, a “capacidade de recuperação do aquecedor (em l/hora para ∆T = 50 °C)”outro Δt, e em litros por hora. Comparar litro por minuto com litro de reservatório é comparar coisas diferentes.
  • Os números da tabela oficial merecem uma conferida antes de virarem decisão. Registramos porque foi a conta que nos mostrou. Ao recuperar o Δt linha a linha, 25 das 359 linhas devolveram valores impossíveis — e a causa é que elas publicam rendimento abaixo do mínimo legal de 76%, no formato “8,4” e “8,5” onde cabem 84 e 85, e ainda assim seguem classificadas A. Na coluna de kW há dois modelos de mesma potência em kcal/h aparecendo como 33,0 e 3,3. E um modelo publica vazão 2,5 l/min enquanto quatro aparelhos irmãos, de mesma potência em kcal/h, publicam 25,0. Quando o número parecer estranho, refaça a conta antes de descartar o produto.
  • O regulamento já tem data marcada para mudar. Vale para quem compra pensando em durar. A Portaria Inmetro nº 222, de 7 de abril de 2026, acrescentou dois artigos com prazo: a partir de 31 de dezembro de 2028, fabricantes nacionais e importadores só poderão comercializar aquecedores em conformidade com a portaria definitiva resultante da Consulta Pública nº 33, de 14 de outubro de 2025; e a partir de 31 de dezembro de 2030, o mesmo vale para varejistas e atacadistas. O aparelho que você compra hoje segue a regra de hoje, e a regra de amanhã já está escrita em consulta.
Aquecedor a gás de passagem, até 15 l/min — imagem ilustrativa

1. Aquecedor a gás de passagem, até 15 l/min

para um ponto de cada vez, ou dois em lugar de inverno ameno

É a faixa em que a conta do Δt aperta mais rápido. Um 15 l/min declarado entrega 12 l/min quando o Δt necessário é 25, e 9,4 l/min quando é 32. Confira na ficha se a linha da vazão traz o Δt 20 °C — nas fichas que abrimos, 14 de 18 traziam. Vale também olhar a vazão mínima de acendimento, que o manual do instalador é obrigado a informar.

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Aquecedor a gás de passagem, de 20 a 27 l/min — imagem ilustrativa

2. Aquecedor a gás de passagem, de 20 a 27 l/min

para dois ou três pontos abertos ao mesmo tempo

É onde o dimensionamento por soma começa a valer a pena. Na tabela oficial que abrimos, as vazões mais frequentes entre os 378 registros são 15, 20 e 26 l/min. Repare que o número do nome comercial nem sempre é o da ficha: um modelo chamado E33 declara 32,5 l/min, e um chamado E43 declara 43 l/min no gás natural e 45 no GLP. O mesmo nome, dois valores.

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Aquecedor a gás de acumulação (boiler a gás) — imagem ilustrativa

3. Aquecedor a gás de acumulação (boiler a gás)

para quem quer reserva pronta em vez de vazão contínua

Aqui o campo que compara é outro. O regulamento pede “Volume Interno do Reservatório (l)” e o “Tempo de Aquecimento Inicial”, medido também a Δt de 20 °C e sem circulação de água. O manual traz ainda a capacidade de recuperação em litros por hora, e para Δt de 50 °C. Não compare o litro do reservatório com o litro por minuto do de passagem: são unidades diferentes e condições diferentes.

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Aquecedor elétrico de passagem e chuveiro — imagem ilustrativa

4. Aquecedor elétrico de passagem e chuveiro

a fronteira: outro regulamento, outro conjunto de campos

Vale saber onde esta tabela deixa de valer. A Portaria Inmetro nº 89, de 22 de março de 2022, trata de aparelhos que usam gás como combustível. Chuveiro e torneira elétricos não estão nela, e se comparam por potência em watts e pela tensão da casa — assunto do guia de chuveiro elétrico desta casa. Se a ficha do produto não fala em gás, não procure nela a capacidade de vazão a Δt 20 °C.

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Kit de exaustão, dutos e acessórios — imagem ilustrativa

5. Kit de exaustão, dutos e acessórios

a peça que o tipo do aparelho decide, e que a marcação declara

O regulamento classifica o aparelho em função da exaustão, e essa designação é um dos itens que têm de estar no produto e na embalagem, pelos itens F.1.1.1 e F.1.1.2. O duto não é acessório opcional de estilo: ele é parte do tipo declarado, e o diâmetro da chaminé é uma das colunas da tabela oficial. Confirme o tipo declarado na embalagem antes de comprar qualquer peça de saída — e deixe a instalação com profissional habilitado.

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Medidor de temperatura de água — imagem ilustrativa

6. Medidor de temperatura de água

para descobrir o seu Δt real antes de escolher a vazão

É o instrumento que fecha a conta deste guia. O Δt que você precisa depende da temperatura com que a água chega na sua casa, e essa é a única variável que nenhuma ficha pode informar. Meça a água da torneira num dia frio, subtraia da temperatura que você quer no chuveiro e use a diferença na fórmula. Feita a medida uma vez, ela vale para comparar qualquer aparelho.

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Por onde começar

Comece medindo a água fria da sua torneira num dia frio e decidindo a temperatura que você quer no chuveiro: a diferença entre as duas é o seu Δt. Depois aplique a conta em cima do número do anúncio — vazão real = vazão declarada × 20 ÷ Δt —, porque o número publicado vale para Δt de 20 °C e não para o seu. Um 15 l/min vira 12 num Δt de 25 e 9,4 num Δt de 32. Some os pontos que ficarão abertos ao mesmo tempo, não olhe só o maior. Na hora de comparar duas fichas, prefira a que escreve a condição: em 18 fichas que abrimos, 14 traziam a linha com o Δt 20 °C, enquanto a tabela oficial do Inmetro, com 378 registros, não a traz nenhuma vez. E se algum número parecer fora de lugar, refaça a conta antes de descartar o produto — encontramos 25 linhas da tabela oficial com rendimento abaixo do mínimo legal de 76%, e o que havia ali era vírgula fora do lugar, não aparelho ruim. A instalação e a ligação de gás são serviço de profissional habilitado, e nada neste guia substitui o manual do fabricante.

Fontes desta página. O campo “Capacidade Nominal de Vazão (p/Δt=20ºC)(l/min)” da Planilha de Especificação Técnica, os mínimos de eficiência do item A.1.3, as faixas da Tabela A.1 e as listas de marcações dos itens F.1.1.1 e F.1.1.2 estão no texto consolidado da Portaria Inmetro nº 89, de 22 de março de 2022, em PDF, a redação em vigor do Anexo B e os prazos de 2028 e 2030 estão na Portaria Inmetro nº 222, de 7 de abril de 2026, e os 378 registros conferidos estão na Tabela de Eficiência Energética de aquecedores de água a gás publicada pelo Inmetro. Conferido em 17 de setembro de 2026. É preciso dizer o que esta apuração é e o que ela não é. As 18 fichas de modelo vêm de um único fabricante, escolhido por publicar a ficha completa em página aberta; não medimos o mercado, medimos como esse fabricante publica. A tabela oficial que lemos é a de aquecedores do tipo instantâneo com data de 31 de dezembro de 2025, e a conta do Δt foi feita por nós a partir das colunas de vazão, potência e rendimento — o documento não publica elevação de temperatura nenhuma. Na base de atos do Inmetro a situação da Portaria nº 89 aparece como “Revisto”, com a Portaria nº 222 registrada como o ato que a altera; lemos o ato que altera para saber o que está em vigor, em vez de confiar na ordem das redações empilhadas no PDF consolidado. Não abrimos nenhum aparelho, não medimos vazão nem temperatura de nenhum modelo, e a ficha do ato na base declara “É alterado por Portaria INMETRO / MDIC nº 222, de 07/04/2026 — Em vigor” como a única alteração: conferido em 17 de setembro de 2026, não há ato posterior que a altere. Documentos do fabricante podem mudar sem aviso.

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